O retrato de Jesus: uma reflexão sobre identidade, representação e igualdade

Ao habitar um corpo que reproduz a morte social, Jesus carregou em sua própria pele as marcas das práticas discriminatórias de sua época, em que o sujeito era privado de si mesmo.

RELIGIÃO

Maiza Silva

7/13/20242 min read

photograph of person facing opposite in smoky spotlight
photograph of person facing opposite in smoky spotlight

Não sei como foi a sua experiência ao ver, pela primeira vez, a imagem de um Jesus negro. Mas a minha aconteceu ainda na infância. Não me recordo exatamente se, naquele momento, quando assisti pela TV* um Jesus diferente do que eu conhecia me causou estranheza; mas, com toda certeza, alí, aos meus 12 de idade, eu ainda não reconhecia o quanto aquela cena representava.

Aquela altura, em meu imaginário, habitava um Jesus branco de olhos azuis, com um coração reluzente. A imagem do Sagrado Coração de Jesus, pintada em 1878, pelo artista francês Adolphe-Charles Adam, é uma das representações mais populares do Cristo, simbolizando seu amor pela humanidade. Mas essa imagem natural, neutra e universal, que a maioria de nós conhece, mais do que demonstrar o sentimento de Jesus, revela a associação de um Cristo branco, criada pelo império para justificar a opressão dos povos originários e africano.

Ao contrário do arquétipo religioso, o Jesus histórico, provavelmente de olhos castanhos, pele morena e cabelos aparados, assim como os judeus do primeiro século da Galileia, carregava uma imagem condizente com a condição humana de um povo fragilizado, caracterizado pela pobreza gerada pelas dificuldades econômicas, em que apenas uma pequena elite rica permanecia no topo da escala social, sendo sustentada pelas classes mais baixas, compostas por trabalhadores agrícolas, artesãos, pescadores e outros trabalhadores manuais.

E assim, o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1:14).

Ao habitar um corpo que reproduz a morte social, Jesus carregou em sua própria pele as marcas das práticas discriminatórias de sua época, em que o sujeito era privado de si mesmo. Ao conviver com pessoas destinadas à margem da sociedade, Cristo registrou, por meio de seu Evangelho, os efeitos de inúmeros preconceitos, como o étnico e cultural, as divisões religiosas e de gênero, de profissões e ocupações, e, principalmente, demonstrou de forma ativa, como combatê-los, a partir da sua mensagem de amor.

E por conhecer a cruz muito antes de ir para ela, Jesus, durante toda a sua existência, se dedicou a defender a diversidade e a dignidade humana, demonstrando que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus e têm igual dignidade e valor perante Ele. Uma mensagem de igualdade entre as pessoas, independentemente de sua raça, origem e gênero.

*Referência a minissérie “O Auto da Compadecida”, exibida pela TV Globo, em 1999, e que continha mais tramas paralelas que acabaram por ser removidas do filme.