Quando O Futebol Silencia Talentos: O Pacto Da Branquitude No Bola De Ouro
Se você é ou não é amante do futebol, com certeza se deparou com uma série de questionamentos sobre o Prêmio Bola de Ouro deste ano (2024). A premiação, que consagra o melhor jogador do mundo, foi especialmente polêmica ao desbancar o brasileiro Vini Júnior, apesar de seu desempenho notável pelo Real Madrid.
Maiza Silva
11/1/20243 min read


Se você é ou não é amante do futebol, com certeza se deparou com uma série de questionamentos sobre o Prêmio Bola de Ouro deste ano (2024). A premiação, que consagra o melhor jogador do mundo, foi especialmente polêmica ao desbancar o brasileiro Vini Júnior, apesar de seu desempenho notável pelo Real Madrid.
Vini Júnior, um dos grandes destaques da última temporada, é autor de dribles eletrizantes, gols decisivos e uma consistência que o coloca entre os melhores jogadores do mundo. Entretanto, o prêmio acabou sendo direcionado a Rodri - meio-campista do Manchester City, uma escolha que gerou debate entre fãs e críticos, agitando as redes sociais.
Diante dos resultados, muitos questionaram se os critérios de escolha realmente valorizaram o desempenho em campo ou se levaram em conta fatores como o peso midiático. A verdade é que entre todos os critérios levantados, o pacto da branquitude sobressaiu influenciando a decisão.
“Ninguém... se mexe! Eu tô falando sério, nem um passo. Eu mal pisquei os olhos e vocês já estavam achando que podiam dar um jeitinho. Pois bem, podem até tentar, mas, olha... hoje, vocês não vão a lugar nenhum!”
Como bem definiu a pesquisadora Cida Bento, o Pacto da Branquetude é um acordo implícito entre pessoas brancas para manter privilégios e posições de poder, sustentando desigualdades raciais através de omissões e naturalização de práticas que favorecem a branquitude.
E antes que você assuma o discurso do mimi, eu sei bem o que você pensou:
“Como podem acreditar que, nos dias de hoje, pessoas brancas se reúnam para fazer um pacto e decidir quem acende ou não ao poder?”
Acontece que como num comando, digno de literatura policial, a ordem vem da sociedade. Uma sociedade que por, mais que diga o contrário, mantém o racismo protegido, dentro e fora das instituições.
Futebol, Uma Indústria Global Milionária
Ao longo do séc XX, o futebol perdeu seu lugar de brincadeira de rua para se transformar em um negócio milionário, tornando-se uma das indústrias mais lucrativas e influentes do mundo.
Esse crescimento, impulsionado pela globalização do esporte e pelo avanço das telecomunicações angariou grandes patrocinadores, primeiramente, pela popularização da televisão, responsável por levar o futebol a um número maior de pessoas no mundo todo, o que consequentemente promoveu uma audiência internacional, fazendo com que as ligas e os clubes passassem a negociar contratos milionários de direitos de transmissão, com direito a fabricação de eventos mundiais como a Copa do Mundo e a Liga dos Campeões da UEFA - União das Associações Europeias de Futebol.
E se antes o futebol era considerado, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, como o esporte das classes sociais mais baixas e aos países em desenvolvimento, como os da América Latina e partes da África, atualmente, ele é amplamente respeitado, atraindo investimentos de grandes corporações, transformando jogadores em celebridades. Tudo isso graças às negociações altíssimas de passes milionários, movimentando uma complexa cadeia financeira capaz de gerar benefícios para investidores, agentes e, claro, para os próprios atletas.
O comando do sistema soa seletivo e não apenas impede as pessoas pretas de se moverem dentro da engrenagem social, como também mina os sonhos de uma geração inteira, que busca reconhecimento e oportunidades de ascensão em uma sociedade desigual.
Esse bloqueio não se limita apenas a uma questão de mobilidade social; mas perpetua a ideia de que certos grupos são intrinsecamente superiores, deslegitimando os talentos e habilidades de indivíduos que, apesar de suas capacidades, enfrentam barreiras invisíveis e explícitas. Um verdadeiro pacto exercido pelas organizações, fomentando a discriminação racial e perpetuando a exclusão de indivíduos em diferentes cenários.
A branquitude, além de moldar a forma como a sociedade elege seus representantes, mantêm os privilégios de um grupo restrito, deslegitimando esforços e limitando o potencial coletivo de um povo inteiro.