“Uma pessoa sozinha não é má, duas também não, mas um ajuntamento pode ser perigoso! ”

Água Funda mostra-se cirúrgico ao retratar uma sociedade marcada pela herança da escravização, pela rigidez das hierarquias sociais e pela naturalização da violência, inclusive contra os animais.

2/9/20264 min read

Uma notícia chocou o país: quatro adolescentes torturam “orelha”, um cãozinho comunitário, numa praia em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul. Sozinho, um adolescente só não seria capaz, dois, talvez, também não, mas uma estrutura social inteira, não apenas corroborou, como se mostrou conveniente para que o crime fosse cometido.

De acordo com os dados oficiais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil registrou, em 2025, em média 13 casos de maus-tratos a animais por dia. Com cerca de 5000 processos judiciais abertos no ano, os números refletem a permanência da estrutura social demonstrada por Ruth Guimarães, na obra Água Funda, publicada em 1949.

Quando notícias como a de “orelha” são comparadas a obras literárias, especialmente àquelas já consideradas clássicos, fica evidente como a realidade alimenta a ficção, a ponto de o enredo de Água Funda mostrar-se cirúrgico ao retratar uma sociedade marcada pela herança da escravização, pela rigidez das hierarquias sociais e pela naturalização da violência, inclusive contra os animais.

A descrição das sequelas da exploração animal como força de trabalho, feita por Ruth Guimarães, então com 19 anos, abordada de forma pincela entre os causos da região do Vale do Paraíba durante a transição entre a escravidão e o trabalho livre no Brasil, possibilitou uma reflexão profunda sobre como se configuram as relações entre homens e animais na atualidade, permitindo, inclusive, uma análise social dos dias de hoje.

“Que é que ficou daquela Sinhá de cabeça em pé, que mandou matar o baio, de raiva, e se indispôs com a filha, pra amor do namoro com o filho do capataz?”

O trecho sobre a morte do cavalo baio, a mando da personagem Sinhá Carolina, é um exemplo claro dessa naturalização. Para além da falta de empatia, a crueldade cometida pela personagem, em nome de uma vontade própria, demonstra sua falta de controle emocional diante de circunstâncias que reverberam ciúmes, contrariedade e até mesmo uma impulsividade descarregada nos animais.

Por mais que Água Funda não traga descrições explícitas e diretas sobre maus-tratos, caracterizadas por cenas longas e descritivas, ao abordar a morte do baio, ordenada de forma prática, a obra expõe a permissividade, por parte da comunidade, diante dessa e de outras violências presentes no livro, justamente pela ausência de reação dos demais personagens perante o fato, legitimando a ideia de que o sofrimento animal é aceito como parte da ordem social; algo que, para boa parte dos brasileiros, ainda hoje é tratado como menor.

Embora de lá para cá nossas leis tenham mudado, é fato que as desigualdades sociais e a desumanização de determinados grupos perpassam o tempo, revelando-se profundamente enraizadas, ao ponto de os animais continuarem sendo tratados como objetos, enquanto a violência, muitas vezes relativizada, se justifica como brincadeira, impulso juvenil ou desvio individual.

Porém tão triste quanto verdadeiro, é que o episódio de Santa Catarina não se encerra na violência do ato, ele expõe, para além da permanência histórica, a manutenção de privilégios destinados a uma parcela da sociedade presente no topo da hierarquia racial: a branquitude.

Ao se proteger coletivamente, a branquitude, mesmo quando toma uma decisão que causa sofrimento aos demais, se manifesta como “necessária” para proteção da imagem social de seus beneficiados; “prática” para torná-los impunes aos atos cometidos e “inevitável” para que o sucesso de seus futuros agentes seja protegido.

Em casos como o de “orelha” a não responsabilização perante as decisões tomadas pelas figuras de poder, faz perpetuar o pacto da branquitude, em nome da proteção de privilégios raciais e de classe, naturalizando a impunidade, enquanto reafirma que determinados sujeitos estão acima da responsabilização social e jurídica.

Um ponto fundamental para compreender o pacto da branquitude e seu silenciamento diante da violência animal é a lógica racial, visto que para a branquitude corpos minorizados estão sempre disponíveis à exploração, sendo incapazes de gerar consequências morais para seus agressores, como demonstra o trecho de Água Funda:

“Ora, Seu Joaquim Dias! O senhor, um homem acostumado a lidar com escravo, com esses dengues?... Vai ver que foi ela que andou chorando prele vir. Descanse, homem. Aqui não há de faltar macho pra ela.”

Sinhá Carolina, ao decidir não concretizar a compra do esposo de sua nova “escrava”, por acreditar que não faltaria homem para ela em sua fazenda, além de reafirmar a superioridade das pessoas brancas em relação às pessoas negras, tem sua decisão aceita como ordem natural da estrutura social, de forma que as coisas são assim porque sempre foram.

Outro trecho com violência semelhante é: “Eu, que sou eu, fiquei sem marido; o que é que tem essa negra que não pode ficar?” A fala de Sinhá Carolina sugere uma microagressão diante dos sentimentos da mulher escravizada, frente à perda de sua estrutura familiar, que compreendia como sua, no contexto da transição comercial.

Para além das páginas de Água Funda somos obrigados a reconhecer como certas formas de violência, sejam aparentes ou silenciosas, podem ser legitimadas e socialmente aceitas, de forma que continuam a organizar as relações no presente. Quase sete décadas separam o livro de Ruth Guimarães do ato cometido contra “orelha” e, ainda assim, a forma como os suspeitos têm sido tratados revela que pouco mudou.

O episódio não expõe apenas a crueldade de quatro adolescentes, nem se limita à falência de uma estrutura social incapaz de educar para o respeito à vida e à responsabilidade coletiva. O crime contra “orelha” confirma que essa mesma engrenagem, que operava no fim da década de 1940, segue ativa na década de 2020, tratando a violência cometida contra as minorias como uma exceção, e não como sintoma, de modo que mudam o cenário, os envolvidos e a manchete do dia, enquanto permanece intacta a lógica que faz do ajuntamento não apenas um risco, mas uma construção deliberadamente perigosa.

Fontes: Jornal da Bahia: https://vozdabahia.com.br/brasil-registra-media-de-13-casosde-maus-tratos-a-animais-por-dia-em-2025/ GUIMARÃES, Ruth. Água Funda. São Paulo: Editora 34, 2018.

Maiza Silva é escritora e ensaísta, com interesse em literatura brasileira, crítica social e leitura do presente a partir da ficção. Seus textos investigam permanências estruturais da sociedade brasileira, dialogando com obras clássicas e acontecimentos contemporâneos. Dedica-se especialmente à produção de artigos ensaísticos voltados à crítica literária.